Monthly Archives: Outubro 2010

Navio

Navio

Eu sou navio,

e você é água por onde tenho percorrido.

Mergulho em tuas águas profundas

sem saber como voltar.

 

Eu sou navio,

em tua dimensão fui navegando e sendo navegada.

Fui amada, desejada, desnudada.

Vida minha, vida minha desventurada!

 

Porque eu sou navio perdido

e sem querer me achar,

Trafegando por entre as pedras do teu leito,

buscando abrigo em teu quente peito.

 

Eu sou navio, você é mar traiçoeiro

e lançou-me em tuas encostas rochosas,

sem saber, sem querer, sem poder, e querendo,

fui de encontro ao inevitável.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …



Eu era navio.

Despedacei-me em você.

Agora sou náufrago, sem porto, sem cais,

pedaços de mim que já não são nada mais.

 

O sol escaldante me queima agora a

pele porcelana, e as marcas ficarão

para sempre no corpo e na alma.

Porque eu era navio… Hoje sou dúvidas.

– Alma naufragada.

 

© Por Lilly Araújo-Direitos Autorais Reservados.

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Vício

  

 

 

Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invades tudo, e é impossível te expulsar
por que então já sou eu que te procuro.



Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, – clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

 

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
a caminhar a esmo …

 Chegas – como uma crise a um asmático, – e então
[preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não
[te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo …
alcançar-te é um suplício …

Teu amor para mim – é humilhante a confissão
-D
epois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
não é amor, é vicio …

(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro – Harpa Submersa – 1952)

"Falta de Ar"


 

Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim…

( Tenho até a impressão de que não preciso de nada…
… nem mesmo de mim…)

Mas há dias, amor… (e parece mentira)
– nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição –

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
– de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja –

– Você é o ar com que respira
meu coração!
 (Poema de JG de Araujo Jorge do livro
– Antologia Poética Vol. II – 1a ed. 1978)