Monthly Archives: Dezembro 2014

Necessidades

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É necessário que eu gaste
as tintas que escorrem,
sem protestar, pela caneta nervosa,
que apenas obedece aos meus dedos.
Dedos também nervosos!

É necessário que eu gaste
cada palavra capturada
pela minha rede ansiosa e aflita,
e que me agarre à esperança
de que a solidão fuja ao som,
que retine quando sou lida.
E esperar, que de alguma forma,
essa solidão me esqueça,
me deixe, seja espantada,
por um instante que seja.

É necessário
que eu lance mão das letras,
dos versos,
dos gritos ocultos em cada dígito,
para que eu não morra de vez.
Ou enlouqueça.

É necessário
que eu busque essa prisão
para me prender,
como a âncora busca o fundo
para se proteger do mar,
onde só o navio flutua livre
porque não tem medo de amar.

É por pura necessidade.
Apenas isso.
Não é vaidade, não é arte.

Apenas necessidade,
dessas que se tem todo dia,
como a língua que necessita do paladar,
como as unhas necessitam
afiar-se nas costas da pessoa a amar,
como a serpente que
necessita destilar o seu veneno,
e se insinuar antes da picada.

Apenas necessidade.
E mais nada!

Lilly Araujo

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Mais um beijo

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Não há paz completa
dentro do peito de um poeta.
Não há um instante sequer,
que descordenado, descompassado,
assim, como se soluçasse,
ele pare de bater,
ele saiba não doer.

Não há paz, para quem,
assim como eu,
traga um coração bêbado,
trôpego e febril,
sempre a claudicar dentro do peito.
Para nós, pobres poetas,
não há nada que dê jeito!

E nessa guerra fria,
os meus dias congelam-me os pés,
e olho sem entender para o céu cinzento,
que goteja uma garoa fina e constante,
que tomou-me os beijos amantes.

Não há paz!
Nunca mais paz!
Para quem, como eu,
experimentou do néctar do desejo,
e que agora vive a buscar
mais uma dose, mais um trago,
mais um beijo.

Lilly Araújo