Category Archives: Poemas de Lilly

Gosto que seja assim

snake

Descobri que gosto de te espiar,
assim, às escondidas,
numa página estampada
para qualquer transeunte dessa vida.

Sinto ciúmes que te vejam,
e sinto ridícula ao sentir,
e sorrio de mim.

Gosto do soco no estômago
ao relembrar nós dois.

Gosto do amargo da solidão,
pois só desse modo
o paladar se contrasta e agradece,
quanto de novo te provo
e teu paladar me apetece.

Gosto que seja assim,
devagar…

Ir nos construindo pouco a pouco,
nos desnudando peça a peça,
com uma curiosidade quase pueril,
e desfilar no seu corpo
com desejo febril.

Gosto de passear nas suas curvas,
como as serpentes nas brenhas,
e deixar que de todo tu me tenhas.

Gosto que depois partas sem avisar,
e que faltes,
e distante, eu te aspire,
e te deseje, e não te encontre…

Gosto de sofrer!

Recebo esta dor com efêmero prazer,
esta doce-dor,
que ao cessar,
traz para mim o teu amor.

Esse amor que é todo teu,
e todo meu,
e de ninguém mais…

E assim,
dos teus lábios,
eu posso colher,
gota a gota de um bálsamo
indescritível de prazer.

Lilly Araújo

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Qualquer paladar

Qualquer Paladar

Não sou para um paladar tímido.
Sou pimenta ardida,
sapeca, moleca, rendida.

Não sou para qualquer paladar.
Sou doce, dócil,
profunda, marcante,
mulher, menina,
e às vezes viril.
Feita de sonhos e para se sonhar.

Não sou para qualquer um paladar,
porque se me provas,
e se gostas, eu também quero bis.
E me lambuzo, e abuso,
e me converto em ser feliz.

Lilly Araújo

O café que não veio

café que nao veio

O café que sempre sonhei
agora vai ficar em bule qualquer
esfriando…
sem calor, sem toque, e esquecido
de todo gesto de carinho.

O café que por tantos meses planejamos
vai ficar assim,
como uma carta que o correio estornou,
como um poema amassado no fundo de uma gaveta,
como tantos outros projetos que acabam descendo
ao túmulo sem nunca virem à luz do dia.

O café que tanto desejei,
vai ficar assim,
como um aborto,
ou um natimorto,
porque nem sempre se pode plantar e colher.

O “nosso” café, nunca chegará
a ser ‘nosso’,
porque temos medo…
Temos medo.
E essa é toda explicação.

Lilly Araújo

O Encontro

encontro2

Imagino insistentemente como
será o chegar daquele dia…

Trago o peito palpitante.
Já posso sentir-lhe o cheiro de mar,
prever-te o toque,
e antecipar o paladar.

Depois de tanto tempo,
apenas vislumbrando suas fotos,
imagens que dizem tanto,
e ainda assim é tão pouco.

Os seus convites fortuitos
me desafiam a te encontrar…
Temo, e por temor
sei que não posso tentar.

O encontro!
Poderei olhar-te frente a frente,
sentir entre meus dedos
o frescor do seu toque quente?
Seremos um, finalmente?

O encontro.
De céu e paraíso
de lava e vulcão,
e entre nós
o disparar do coração.

O encontro.
Num desses dias como outro qualquer,
eu tomo enfim coragem,
e vou ao teu encontro,
brincar de ser mulher.

© Lilly Araújo 25/11/2013

Sem depois

Chorar

Eu quero chorar!
Chorar como se só eu tivesse o direito.
Chorar como se só eu, no mundo inteiro,
sentisse essa dor que dói tão profunda
dentro do peito.

Eu quero chorar e me esquecer de tudo
e de todos…
Esquecer da fome mundial,
das doenças incuráveis,
da mazelas sem fim…

Quero chorar egoisticamente,
sentido pena de mim.

Eu quero chorar,
até que as lágrimas todas
saiam e me abandonem,
e expurguem essa dor,
essa emoção sem teto e sem chão.

Chorar tudo até que o tudo se esvazie,
e que esse vazio se junte ao meu vazio,
e sejam enfim dois.

Eu quero chorar todo meu hoje,
sem pensar no amanhã,
sem pensar no depois.

Lilly Araújo