Sem sal

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  “Recusa de imediato o namoro insípido, porque não há sal que dê jeito em afetos falidos.”

[Trecho do texto: “Onde não puderes amar, não te demores”. Por Graça Yaguti]

Não quero sal na minha carne.
Não quero nada que tente conservar,
preservar, protelar
o paladar imediato.

Quero carne fresca,
pulsando vida,
sangrando pelas nervuras,
arrepiando-me a pele.

Quero aquilo que eu prove
por prazer, por querer,
por desejar e não me conter.

Não quero
nada forçado,
arrombado,
estuprado…
Nada de cumprir a cartilha…

Quero provar apenas
aquilo me dê água na boca,
que me salive,
e que escorra por todas
as minhas curvas.

Quero água límpida
nunca TURVA!

Não quero sal na minha carne,
quero o tempero do prazer,
a frescura que se colhe
em cada manhã,
no orvalho pousado na relva.

Quero um amor de carne
e sangue a correr,
desses que se prova
com vontade de morrer.

Lilly Araújo 27/11/14

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Gosto que seja assim

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Descobri que gosto de te espiar,
assim, às escondidas,
numa página estampada
para qualquer transeunte dessa vida.

Sinto ciúmes que te vejam,
e sinto ridícula ao sentir,
e sorrio de mim.

Gosto do soco no estômago
ao relembrar nós dois.

Gosto do amargo da solidão,
pois só desse modo
o paladar se contrasta e agradece,
quanto de novo te provo
e teu paladar me apetece.

Gosto que seja assim,
devagar…

Ir nos construindo pouco a pouco,
nos desnudando peça a peça,
com uma curiosidade quase pueril,
e desfilar no seu corpo
com desejo febril.

Gosto de passear nas suas curvas,
como as serpentes nas brenhas,
e deixar que de todo tu me tenhas.

Gosto que depois partas sem avisar,
e que faltes,
e distante, eu te aspire,
e te deseje, e não te encontre…

Gosto de sofrer!

Recebo esta dor com efêmero prazer,
esta doce-dor,
que ao cessar,
traz para mim o teu amor.

Esse amor que é todo teu,
e todo meu,
e de ninguém mais…

E assim,
dos teus lábios,
eu posso colher,
gota a gota de um bálsamo
indescritível de prazer.

Lilly Araújo

Qualquer paladar

Qualquer Paladar

Não sou para um paladar tímido.
Sou pimenta ardida,
sapeca, moleca, rendida.

Não sou para qualquer paladar.
Sou doce, dócil,
profunda, marcante,
mulher, menina,
e às vezes viril.
Feita de sonhos e para se sonhar.

Não sou para qualquer um paladar,
porque se me provas,
e se gostas, eu também quero bis.
E me lambuzo, e abuso,
e me converto em ser feliz.

Lilly Araújo

O café que não veio

café que nao veio

O café que sempre sonhei
agora vai ficar em bule qualquer
esfriando…
sem calor, sem toque, e esquecido
de todo gesto de carinho.

O café que por tantos meses planejamos
vai ficar assim,
como uma carta que o correio estornou,
como um poema amassado no fundo de uma gaveta,
como tantos outros projetos que acabam descendo
ao túmulo sem nunca virem à luz do dia.

O café que tanto desejei,
vai ficar assim,
como um aborto,
ou um natimorto,
porque nem sempre se pode plantar e colher.

O “nosso” café, nunca chegará
a ser ‘nosso’,
porque temos medo…
Temos medo.
E essa é toda explicação.

Lilly Araújo

Fernando Coelho

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Trecho do diário de um autor desnecessário. Nunca mentira para uma mulher. Mas mentira, para si próprio. Não separava a manhã do dia. Começava a escrever cedo. Não tinha dimensão da solidão. Isso, de escrever, era o mais alto degrau de um infernal diálogo que travava. Da escrita e dele. Era uma relação desesperadora. Compreendia que escrever era mortal. Na mesa de vidro um vaso vermelho. Não tinha nenhum significado, não mais do que um ponto cego pra onde olhava. Uma decoração lerda. Era comum. As palavras rugiam de cavernas com fedor de alma. A maioria delas queria ficar onde estava, ou aparecerem escritas numa mesma palavra. Indomáveis. O seu trabalho era dissociá-las, dissecá-las, provocar-lhes um aborto de origem, socá-las o âmago amorfo. A sala não era maior do que o seu horizonte. Não entendia de medidas. Não podia comparar. Cada palavra tinha um significado. Achava-se um homem de significados. Mas entendia pouco de comportar-se, alimentar-se, dizer-se, precaver-se, alinhar-se, iludir-se, comprazer-se, animar-se, sonhar-se. Entendia somente daquela embocadura cavernosa, dilacerante, a lhe acumular emoções. Era isso sim, um transeunte, irmão de árvores sozinhas, parente próximo das portas que estavam ao seu redor. Os barulhos da rua, gritos, serras elétricas em prédios em construção, cachorros latindo, makitas cingindo granito, gente alegre por nada, automóveis, eram o fundo musical que mais gostava. O seu ato de escrever nunca foi reparador. Travava-lhe as costas quanto mais expunha o coração sanguinário e decomposto em cismas. Não tinha uma filosofia rígida que o fizesse entender o céu, nem colher a chuva, nem dimensionar quando não tinha trabalho. Não há trabalho para escritores. E ele era do pior tipo: rabugento, intragável, vil no trato, escanhoado de paciência, calvo de tolerância. Um letrado que não servia para o mercado. Era um escritor parecido com qualquer um: os que gostam muito de aparecer como escritor, sem saber escrever, mas com livros publicados e tudo, com os jovens escritores que amam suar os dedos para juntar expressões, ainda mais sobre rebeldia e amor e sexo. Ninguém quer escrever sobre guerras. Mas ele gosta, porque no fundo, ele mesmo é uma, ingênita, explosiva, miserável, pobre e fratricida. Hoje mesmo acha inútil escrever. Mas não é um ato separado dele. Se não o fizer, chora, procura matar-se na cozinha, olhando o fogo queimar a comida. O apetite afoga o seu dia. Se não escrever, é um sujeito pior, desordenado, ignorante, triste. Sua melhor companhia é a melancolia. Porque escrever não é um gesto, nem desagravo, nem uma ação cordial. Ele escrevia encurralado. Não tinha nenhuma saída. Entrega-se à própria prisão informal e escreve. Tem alguma convicção de que os escritores, quase todos, sentem o mesmo. Mas disfarçam numa taça de vinho de safra duvidosa, em noite de autógrafos de amigos distantes. Miseravelmente, ele ainda tem um problema: como não suporta ler o que escreve, espera, espera, ambíguo e atônito, que lhe apareça um leitor, apenas um. Ou morrerá sem apelo. E só.

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