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“Espera…”

“Espera…”

Se tivesse mandado uma palavra: – “espera!”
Sem mais nada, nem mesmo explicar até quando,
eu teria ficado até hoje esperando…
– era a eterna ilusão de que fosses sincera…

Que importa a vida, o Sol, a primavera,
se eras a vida, o Sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandado uma palavra: – “espera!”
eu teria ficado até hoje esperando…

Não mandaste, tu nada disseste, e eu segui
sem saber que fazer da vida que era tua
procurando com o mundo esquecer-me de ti…

E afinal o destino, irônico e mordaz,
ontem, fez-me cruzar com o teu olhar na rua,
ouvir dizer-te: – “espera!…” E ser tarde demais…

(Poema de J. G. de Araujo Jorge – in
“Festa de Imagens” 1a ed. 1948 )

Escrevo Dentro da Noite

“Escrevo Dentro da Noite”

Estou escrevendo para não gritar. Para não acordar
os que dormem felizes lado a lado,
os que repousam, aconchegados,
os que se encontram e continuam juntos
e não precisam sonhar
porque não dizem adeus…

Estou escrevendo para não gritar. Para enfunar o coração
ao largo.

E as palavras escorrem salgadas como um córrego de águas mortas
num silencioso pranto.
Tão perto, e nem percebes minha insônia. Nem ouves a confidência.
que põe nódoas no papel para não ter que acordar-te
e se transmuda em palavras, que são estátuas de sal.

Estou escrevendo para não gritar. Para não ter tempo
de acompanhar a noite,
para não perceber que estou só, irremediavelmente só,
e que te trago comigo
sem outra alternativa que o pensamento
– cela em que me debato a olhar a lua entre grades.

Estou escrevendo para não gritar. Para não perturbar
os que se amam
se juntam, e se estreitam, e sussurram na sombra
e passeiam ao luar,

para que as palavras chovam num dilúvio, silenciosamente,
e me alaguem, e me afoguem, e me deixem pela noite a dentro
como um corpo sem vida e sem alma,
a flutuar…
( Poema de JG de Araujo Jorge
do livro”A  Sós…” 1a ed. 1958 )

"A Última Carta "

Respondo à tua carta: (a nossa última carta)
– bem sei que deste amor tu já te sentes farta
e queres acabar. Vou fazer-te o desejo.
Tu tens toda a razão, e afinal, hoje, vejo
o erro que eu e tu na vida cometemos…
Também acho melhor que a história terminemos
já que enfim encontraste um novo amor, sincero,
diferente do meu. Faço votos e espero
que sejas bem feliz… Farei por esquecer
este lindo romance, e por não mais rever
as noites que nos dois, sob a sombra dos ramos
daquela árvore velha, a imaginar passamos
um futuro irreal… Tentarei apagar
da lembrança – o jardim, a casa, o nosso lar,
aquele doce lar do teu sonho de criança
e que era para mim a mais linda esperança…

Tudo isso – afirmas tu – foi apenas um sonho,
uma época feliz, um tempo mais risonho
que afinal já passou… E escreves, terminando,
– que procure da mente meu sonho ir apagando
porque não voltarás jamais, e sendo assim
é melhor esquecer… é melhor para mim…
Que queres que eu responda? – Hei de tudo fazer
para arrancar do âmago do ser
este amor que nasceu sem que eu sequer notasse
fazendo-me sofrer… Se este amor te contasse,
as dores que em meu peito o coração abriga
num sofrimento atroz; verias, minha amiga
que é fácil esquecer, quando apenas julgamos
ter amado; porém, quando em verdade amamos,
só depois de amargar infindáveis tormentos,
conseguimos enfim, alguns poucos momentos
de olvido e solidão. Meu caso é diferente
do teu, pois que te amei, e amei sinceramente
acreditando em ti. Pensei que era feliz
muita vez à razão acreditar não quis,
e hoje sofro pagando a minha ingenuidade.
Tu, não. Pensaste amar; julgaste ser verdade
o que agora não é mais que um sonho desfeito…
Ainda há, como bem vês, acesa no meu peito
a brasa deste amor, e em minha alma ainda existe
um vago relembrar, que me faz triste
sentindo o que passou. Contigo, nem sequer
há de haver, a menor lembrança – és bem mulher
no teu esquecimento… Esqueceste depressa…
– Confessa!… Tu jamais tiveste amor, confessa!
Só assim compreenderei a tua decisão
e o novo amor que achaste… Eu sofro, e com razão,
quando penso que um outro há de beijar-te a boca,
esta flor rubra e fresca onde a minha lama louca,
se fundiu à tua alma e fremiu de desejo.

A tudo esquecerei, talvez – mas este beijo
não tentes me pedir -, de há muito está gravado
como o ponto final da história do passado…
…………………………………………………………………….

E é só. Nada mais tenho a te dizer. Na vida,
não te quero encontrar jamais arrependida
porque seria em vão… Meu amor é dos tais
que morto como foi, não voltará jamais…
………………………………………………………………….

Adeus… (Podes rasgar todos os versos meus…)
perdoa-me se guardo o nosso beijo…

Adeus!…


(Poema de J.G. de  Araujo Jorge
in  ” Meu Céu Interior “- 1934)

"Falta de Ar"


 

Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim…

( Tenho até a impressão de que não preciso de nada…
… nem mesmo de mim…)

Mas há dias, amor… (e parece mentira)
– nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição –

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
– de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja –

– Você é o ar com que respira
meu coração!
 (Poema de JG de Araujo Jorge do livro
– Antologia Poética Vol. II – 1a ed. 1978)

 

 

Tão Simples este Amor

Tão simples este amor nasceu… Nós nem notamos
 que era amor e afeição que aos poucos nos prendia…
 O amor, – é aquela flor que engrinalda dois ramos
 aos esponsais de luz do sol de cada dia!
 
 Dois ramos, – eu e tu, – e as horas desfolhamos
 numa doce, irrequieta e impensada alegria,
 – e assim vamos vivendo, e a viver, acenamos
 sonhos verdes aos céus azuis da fantasia!
 
 Tão simples este amor nasceu… Tal como nasce
 um beijo em tua boca, um riso em tua face,
 uma estrela no céu… ou uma flor de um botão.. .
 
 Nem era necessário mesmo eu te falar,
 se já o tens transformado em luz no teu olhar,
 e eu, já o sinto a cantar, dentro do coração!

(Soneto  de JG de Araujo Jorge – coletânea –
“Meus Sonetos de Amor ” 1a edição1961 )