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Homenagem para minha mãe.

Foto por Lilly Araújo

Nelita

Nasceu no mês de agosto. Era menina. De início teve saúde

frágil e talvez nem escapasse, pensaram seus pais.

Asma era coisa muito grave em seu tempo.

Mas “vingou”! Como diria sua mãe.

 

Crescia. Descobriu aos poucos a intolerância dos adultos.

 Entristeceu-se. Brincou, correu, pulou. Caiu e levantou.

Trabalhou muito cedo. E também trabalhavam cedo os irmãos.

Cedo. Muito cedo sentiu o peso da pobreza.

Mas pior mesmo, foi o peso da mão violenta do seu pai

e a condescendência da frágil mãe.

 

Duvidou do que era amor!

 

Viu as perfumadas e enfeitadas filhas das patroas,

 e sentiu-se diferente, talvez até diminuída. Sofrida. Muito sofrida.

Adolescente ainda pôs o pé na estrada, seguindo o rastro da sua irmã

mais velha. Seria dona de si e buscaria o sentido da vida.

 

Buscaria o sentido do amor!

 

Esperança nos olhos. Inocência que se perdia rapidamente

enquanto a vida batia. Era ainda tão menina! Trabalhou.

Desempregou-se. Desesperançou. Empregou-se novamente.

Um abrigo. Finalmente um teto.

Só faltava-lhe mesmo era um pouco de afeto.

Espelhou-se um dia num tênue reflexo de uma mulher

que despontava nas curvas de seu corpo.

 

Quis buscar agora outra forma de amar!

 

Enamorou-se. Brigou. Voltou. Separou. Desistiu. Tornou a

Tentar. Casou. Seu projeto agora era o de engravidar.

Tentou. Tentou. Pareceu não conseguir. Chorou.

Pediu a Deus e foi ouvida.

Agora em seu ventre habitava uma vida.

 

Finalmente descobriu que amaria!

 

Uma filha. Seu pedaço. Sua continuação. Alegria!

Trabalhou, esforçou-se mais e deu-lhe sua mais sincera

 e profunda dedicação. Tinha uma desconhecida paz em seu coração.

Muito mais luta ainda. E, tempos depois teve um filho. Um varão.

E muito depois veio a filha caçula. Cerrou-se o ventre.

 

 Amou. Errou. Acertou. E amou mais!

 

Chorou ainda tantas vezes por amor, ou desamor dos homens

de sua vida. Mas sobreviveu nessa guerra que é

viver sendo mulher. Sendo “Mãe-Pai”.

E pôde enfim olhar para trás e rever sua história,

e teve que aceitar, que tendo seus filhos como tanto sonhou,

encontrou força para continuar.

 

Tranfigurou-se no próprio amor. E ensinou-nos o que é Amar!

   

Homenagem para o dia das Mães.

©Por Lilly Araújo-08/05/2011

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Choro

Choro

Choro, porque vejo que em meu peito
se estreitam emoções que não posso conter.
Sofro. Nascida assim poeta,
não saberia jamais como não sofrer.

Amo. Um amor louco, doído,
tresloucado, renegado e tantas vezes
abafado pelos meus gemidos.

Choro. Porque ainda tenho direito a lágrimas.
Pois dos meus sentimentos fui furtada,
desde que te quis nem sei porquê.
Sofro. Por dúvidas, por saudades e por distância.

E me afasto sem querer. E permaneço.
Silêncio! Para sempre silêncio em meu ser.
Porque sofro o necessário pelo um bem maior,
que é saber que sem mim estarás bem melhor.

E por isso, eu às vezes choro.

©Por Lilly Araújo-07/05/2011 – Direitos Autorais Reservados.

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Ensaios de Ansiedade

As horas nunca passaram tão devagar. Meus olhos desistiram de acompanhar o movimento monótono dos ponteiros, e numa luta desesperada para se manterem acordados, distraem-se observando o vaguear incerto das luzes coloridas que invadem o meu quarto pela cortina semi-aberta. São as luzes das festas. Os fogos me incomodam, assim como os risos e toda algazarra que vem da rua. Hoje é dia de ano bom.
Parece que faz duas horas que olhei o relógio pela última vez. 23h30min. A hora é a mesma. Chego a achar que o relógio está com defeito, mas logo o ponteiro dos segundos se move preguiçosamente, num esforço fora do comum, como se fosse desistir do ofício. As minhas costas doem, mas não quero me virar. Quero continuar de frente para o relógio esperando os minutos passarem. A luz está acessa. Não posso dormir. Falta pouco agora. Ela disse que ligaria às 23h50min. Olho o telefone ao lado da cama. Ele está calado, frio, imparcial. Não dá a mínima para o que estou passando. Angústia! Penso em ligar, mas uma ponta de dignidade me lembra o amor próprio. Os olhos se enchem de lágrimas antigas que nunca deixei cair. Lágrimas amargas que chegam ao canto da boca. Um nó na garganta me sufoca. Penso na morte; em deixar a vida, que nunca pareceu fazer questão de mim. Dores adormecidas se aproximam para fazerem companhia ao meu estado emocional. Ansiedade! Ensaios de ansiedade: sofrimento dobrado, sentimento que anuncia o fracasso.
23h50min. Enxugo as lágrimas, tento me recompor. O telefone toca… É engano. Levanto da cama desnorteado, abro a cortina como se estivesse espiando algo que não devia. Vejo minha vida miserável através da alegria alheia. Eles estão cantando. A música alta é deprimente e me machuca como o sol pra quem vive nas cavernas. Volto ao choro. Os fogos se intensificam, mas não ouço nada; não quero ouvir. Apago as luzes e me atiro na cama.
0h15min. O telefone toca novamente e me acorda. Eu estava sonhando e por isso demorei a atender. É ela. Ainda estou magoado, mas ao som de sua voz, já não sinto rancores. É como a música de Davi aos ouvidos de Saul. Meus demônios se vão e uma alegria me invade. Meu espírito se renova e cicatriza as inúmeras feridas que minha ansiedade fez.
Desligo. Adormeço e volto a sonhar com ela.
Está tudo tranqüilo agora. Estou na rua compartilhando as luzes coloridas. Pessoas por todos os lados. A música está alta, mas eu não ligo. Ela está na multidão… Ensaio nova ansiedade. Mas ela me abraça, sussurra o meu nome, e diz que nunca mais vai me deixar. Encontro paz.

Autor: Antonio Severo dos Santos Júnior
Rio de Janeiro / RJ

P.S:

Oi, visitei a Antologia on line da CBJE e estou recomendando este texto para você.   Veja em http://www.camarabrasileira.com/cf11-004 .htm


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Autor: Antonio Severo dos Santos Júnior
Rio de Janeiro / RJ

"A Última Carta "

Respondo à tua carta: (a nossa última carta)
– bem sei que deste amor tu já te sentes farta
e queres acabar. Vou fazer-te o desejo.
Tu tens toda a razão, e afinal, hoje, vejo
o erro que eu e tu na vida cometemos…
Também acho melhor que a história terminemos
já que enfim encontraste um novo amor, sincero,
diferente do meu. Faço votos e espero
que sejas bem feliz… Farei por esquecer
este lindo romance, e por não mais rever
as noites que nos dois, sob a sombra dos ramos
daquela árvore velha, a imaginar passamos
um futuro irreal… Tentarei apagar
da lembrança – o jardim, a casa, o nosso lar,
aquele doce lar do teu sonho de criança
e que era para mim a mais linda esperança…

Tudo isso – afirmas tu – foi apenas um sonho,
uma época feliz, um tempo mais risonho
que afinal já passou… E escreves, terminando,
– que procure da mente meu sonho ir apagando
porque não voltarás jamais, e sendo assim
é melhor esquecer… é melhor para mim…
Que queres que eu responda? – Hei de tudo fazer
para arrancar do âmago do ser
este amor que nasceu sem que eu sequer notasse
fazendo-me sofrer… Se este amor te contasse,
as dores que em meu peito o coração abriga
num sofrimento atroz; verias, minha amiga
que é fácil esquecer, quando apenas julgamos
ter amado; porém, quando em verdade amamos,
só depois de amargar infindáveis tormentos,
conseguimos enfim, alguns poucos momentos
de olvido e solidão. Meu caso é diferente
do teu, pois que te amei, e amei sinceramente
acreditando em ti. Pensei que era feliz
muita vez à razão acreditar não quis,
e hoje sofro pagando a minha ingenuidade.
Tu, não. Pensaste amar; julgaste ser verdade
o que agora não é mais que um sonho desfeito…
Ainda há, como bem vês, acesa no meu peito
a brasa deste amor, e em minha alma ainda existe
um vago relembrar, que me faz triste
sentindo o que passou. Contigo, nem sequer
há de haver, a menor lembrança – és bem mulher
no teu esquecimento… Esqueceste depressa…
– Confessa!… Tu jamais tiveste amor, confessa!
Só assim compreenderei a tua decisão
e o novo amor que achaste… Eu sofro, e com razão,
quando penso que um outro há de beijar-te a boca,
esta flor rubra e fresca onde a minha lama louca,
se fundiu à tua alma e fremiu de desejo.

A tudo esquecerei, talvez – mas este beijo
não tentes me pedir -, de há muito está gravado
como o ponto final da história do passado…
…………………………………………………………………….

E é só. Nada mais tenho a te dizer. Na vida,
não te quero encontrar jamais arrependida
porque seria em vão… Meu amor é dos tais
que morto como foi, não voltará jamais…
………………………………………………………………….

Adeus… (Podes rasgar todos os versos meus…)
perdoa-me se guardo o nosso beijo…

Adeus!…


(Poema de J.G. de  Araujo Jorge
in  ” Meu Céu Interior “- 1934)